Política feminista nas eleições brasileiras de 2018

Que nós, mulheres, somos sub-representadas no poder legislativo, todo mundo sabe. Somos mais de 50% da população e menos de 10% no Congresso Nacional. Situação semelhante ou pior ocorre com as pessoas negras, as LGBTs, jovens e o povo pobre em geral. Em 2018 estão em cursos diversas articulações na tentativa de democratizar o processo eleitoral.

Neste momento tão difícil da história do Brasil, enfrentamos um golpe institucional que desde 2016 impõe uma sequência de medidas de regressão de direitos e estimula o crescimento de uma onda fascista, ancorada em crimes de ódio, e constrói, cada vez mais e maiores riscos para a nossa tão frágil democracia.

Mas, resistimos! E eclodem diversas experiências que jogam luzes para iluminar o túnel nestas eleições. Para nós, do movimento feminista, isso é fundamental. Temos duas novidades auspiciosas: a novidade legal é que todos os partidos estão obrigados a destinar o percentual mínimo de 30% de recursos do fundo partidário para as candidaturas femininas. Junto com a cota de 30% de candidaturas por sexo, esta é uma conquista que precisa ser vigiada de perto. Temos também uma forte novidade política: o enorme crescimento de candidaturas de mulheres jovens e majoritariamente negras, entrando na disputa eleitoral a partir de uma trajetória de participação em movimentos sociais, muitas das quais são candidaturas feministas e antirracistas.

Claro que, como o nosso sistema eleitoral se baseia no voto nominal articulado com a eleição por coeficiente eleitoral das coligações e/ou partidos, há riscos destas candidaturas de novo tipo alimentarem a velha política que não nos representa. Mas o contrário também pode acontecer. Ampliou-se a potencialidade de renovação política a médio prazo, ainda dentro das regras destes sistema político-eleitoral que lutamos tanto pra transformar.

Emergiram, nesse contexto, várias campanhas que buscam fortalecer candidaturas de mulheres. A PartidA se constituiu como um movimento com esse sentido e lançou a campanha “meu voto será feminista!”, uma iniciativa que está dando bons frutos. Feministas de vários movimentos sociais se juntaram para construir candidaturas coletivas, a exemplo do “JUNTAS”, pelo PSOL de Pernambuco. O PT está procurando gerar condições mais favoráveis de vitórias para suas candidaturas femininas com o projeto “Elas Por Elas”. Organizações feministas disponibilizam materiais nas redes sociais, como a animação do Cfemea, que também tem caráter educativo para ser usado em debates reforçando a relação entre as eleições e o golpe. A AMB lançou um documento nacional de posição crítica, defendendo o voto em candidaturas feministas antirracistas e anti-capitalistas, ao mesmo tempo que procura impulsionar a luta pela revogação das medidas golpistas atuando na campanha VOTE E REVOGUE, da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político. Este movimento entende que essa luta vai ultrapassar o período eleitoral.

Uma iniciativa cresceu nas redes sociais e promete saltar para as ruas na última semana do mês. É a movimentação das mulheres contra o fascismo, também chamada ‘mulheres contra o coiso’ ou ‘o inominável’. As pesquisas têm revelado que o maior índice de rejeição do candidato militar é entre nós, mulheres. Também cresce a rejeição dele na região nordeste. Isso é muito animador. Nos dá impulso para colocarmos a nossa irreverência feminista nas ruas e darmos um basta às suas ameaças.

Dia 28 de setembro, em toda a América Latina, o movimento feminista estará nas ruas pela legalização do aborto. E no dia 29 continuaremos nas ruas, em várias cidades do país, nos mobilizando contra o obscurantismo, o conservadorismo e as ameaças dos fascistas à nossa liberdade e autonomia.